domingo, 6 de janeiro de 2008

Tonhão estava lendo o jornal, e não viu quando Tonho chegou, mas este não se incomodou: deu-lhe um tapa forte na coxa e sentou-se ao seu lado, no banco da praça. Mostrava a pele clara, seu corpo de tórax largo e coxas grossas de quem acabava de voltar do exército, corpo que alargaria, ao longo da vida, mas que por enquanto era jovem; embora ele próprio fosse mais alto e mais forte do que o amigo, chamava-o de Tonhão, por uma questão emocional e não física. Falaram de trivialidades, inclusive da bichinha, o vizinho de Tonho, de 11 anos de idade, que ainda não tinha dado, mas que estava próximo disso, como Tonho detalhou: já havia notado a desmunhecação, mas nunca teve oportunidade de se aproximar, pois não é que nessa manhã ele fora à sua casa e a mãe pedira que o acordasse? Tonho já estava acordado, mas fingiu que dormia; a bichinha entrou no quarto, chamou-o e, como ele não acordava, aproximou-se, tocando-o no ombro; Tonho virara-se na cama, de pau duro, e deixara que a presa visse, sob o lençol, o volume. Depois, “acordara”, espreguiçando-se e observando para onde a bichinha olhava, "e não deu outra coisa, claro, meu, tá quase no papo". Daí, Tonho quis saber de Tonhão o que ele fazia, sentado na praça, plena 1 hora da tarde, e Tonhão esclareceu que estava na hora do almoço, daí a pouco teria que ir trabalhar, todo mundo pobre um dia tem que ir trabalhar, e Tonho concordou, mas por enquanto não precisava, não fazia nem dois meses que terminara de servir a pátria, podia vagabundar um pouco. No dia seguinte, uma sexta-feira, Tonho chegou da mesma forma, surpreendendo Tonhão, que lia o jornal, e retomou o papo, começando pela namorada, que queria viajar com ele para Santos, numa excursão, com um detalhe que o preocupava: por duas vezes, ele percebera que ela estava mentindo quanto ao período fértil, parecia que queria engravidar, talvez quisesse obrigá-lo a casar-se, como fazer? Tonhão sugeriu camisinha, mas Tonho esclareceu que era acessório que ela dissera detestar, dizia que tirava toda a graça, mas como saber se ela não queria engrupi-lo? Difícil, concordou Tonhão, mas podia ser na base de relação anal, e Tonho perguntou "o que?". Tonhão repetiu "relação anal", ainda ligado na notícia que lia no jornal, e Tonho concordou que podia ser uma solução, emendando o papo na bichinha, que voltara para acordá-lo naquela manhã, com a bênção de sua mãe, graças a Deus ela nunca ia pensar naquilo, e Tonho o chamara para sentar-se na cama, pôs a mão em sua coxa, sem alisar, porque a caça podia assustar, e a bichinha deixara. Ele sentia que estava indo, devagar e sempre. Na segunda-feira, Tonhão estava no mesmo banco, quase cochilando, quando Tonho chegou, animado, feliz, porque tinha ido a Santos, não tinha dado certo a relação anal, e "então eu botei no cu, mesmo", tinham nadado, caminharam pela cidade, Santos era muito bonita, nem tinha sentido cansaço da viagem, imagine que a bichinha tinha ido acordá-lo outra vez, pediu-lhe que pusesse a mão em sua barriga e ela concordara, ficou subindo e descendo a mão, "foi bom pacaralho, é só uma questão de tempo". Tonhão viajou a serviço e ficou fora por 11 dias; quando voltou, foi inevitável que voltasse à praça, e foi inevitável que Tonho o encontrasse, informando que estava trabalhando, mas só depois do almoço, num cartório, era office-boy, mas só por enquanto. Continuava desconfiando da namorada, ela dizia que não tinha perigo de engravidar, mas as datas não batiam, o que ele podia fazer? Nenhum dos dois soube responder, embora Tonhão achasse que ele devia terminar o namoro, havia muitas mulheres na praça, nem todas tinham a fissura para casar que Tonho pressentia nessa namorada, poxa, ele era muito novo, estava apaixonado, queria continuar com ela, mas não queria risco, estava difícil, mas ele ia continuar tentando. Rapaz, "a bichinha pegou no meu pau, ficou segurando", começara a bater-lhe uma punheta, mas ficara assustada com a voz da mãe, perguntando se ele ia ou não se levantar, correra, e tinha mais: ele se levantou, embrulhado no lençol, e abraçou-a por trás, sem falar nada, passou a mão nos peitos dela, enquanto a encoxava, apertou-a contra si, ela ficara em silêncio, não reagira, mas ele não pudera gozar, ia sujar o lençol e a bermuda da bichinha, tudo. Ainda teve outro dia, quando ele levantou o lençol, ainda deitado na cama, e convidara-a para deitar-se ao seu lado; ela não se deitara, mas sentou-se, de costas, e ele encostara em sua bunda, ficou ali por longos minutos, e quando começou a mexer-se, a presa assustou e foi embora. Mas prometia. Tonhão apresentou a namorada ao Tonho, no dia seguinte, estavam relaxando no banco da praça, quando o amigo chegou: trabalhavam no mesmo lugar, ele a convidou para ir ao cinema e descobriu que ela estava a fim dele há semanas, era um cego, nem percebera aquele avião ao seu lado, mas agora ia tirar o atraso, e não pôde haver atualização, nem da namorada, nem da bichinha, porque, sei lá, a namorada do Tonho podia não entender, aquilo era papo de homem. Dois dias depois, a namorada do Tonhão tivera que ir almoçar em casa, porque a mãe não estava bem, e Tonho pôde contar ao Tonhão que a namorada suspeitava estar grávida, bem que ele a avisara, mas ela só podia ser burra, estavam transando, mas não precisava ficar prenha, agora iam ter que dar um jeito, Tonhão conhecia alguma clínica de fazer anjo? Tonhão conhecia, ficava em outra cidade, próxima dali, por acaso tinha o endereço na carteira e passou-o ao amigo; Tonho relaxou, e contou que a bichinha o deixara pôr nas coxas, mas não deixara que ele tirasse sua bermuda, disse que tinha medo, não adiantou ele dizer que não ia machucá-lo, "onde que se viu, somos amigos, vai ser só prazer para os dois", mas não teve jeito. Ainda assim, ela continuava indo acordá-lo todos os dias, ia chegar lá. Na outra ocasião, Tonho falou "ô, Tonhão, tem novidade, meu, você vai gostar de saber", a bichinha tinha topado ficar pelada, mas só de costas, acho que não quis que eu visse o pau dele, mas eu não queria ver, mesmo, ficou morrendo de medo de ser machucado, eu esfreguei só na portinha, rapaz, foi um espanto, a mãe podia entrar no quarto, "porra, ia ser uma merda, ele vai fazer 12 anos só no mês que vem, mas é um veadinho perfeito, gozei, cara, não entrou, escorreu, tive que pegar papel higiênico, ele não podia chegar na casa dele todo sujo, ia dar merda, mas estou quase dentro, meu!". A namorada topava fazer o aborto, mas não queria chegar na clínica de dedos pelados, iam saber que ela era solteira, então ele foi nas Lojas Brasileiras, "cara, um par de alianças de latão custa metade do preço de um par de ouro verdadeiro, onde já se viu, eu comprei de ouro, porque essas eu guardo, vão servir um dia, a de latão a gente ia jogar fora, não acho meu dinheiro no lixo, eu sou pobre, porra!, a gente vai amanhã, é bom, fica logo livre disso". "Graças a Deus, deu tudo certo, Tonhão, o anjo ficou lá na clínica, mas eu aproveitei as alianças e fiquei noivo, cara, tu não conhece os irmãos dela, olha que eu sou grande, mas o menor deles dá dois de mim, que que é isso, mermão, mas eles são legais e eu gosto dela, tá certo, cara, cê tem que ver, a bichinha sentou no meu colo, eu tava na cama, esperei pelado embaixo do lençol, quando ele chegou eu sentei e falei vem cá, ele veio, meio ressabiado, sentou de roupa, daí eu falei que a roupa estava me machucando, olha só pra ele, puxa, tá louco pra encostar em você, fui tirando a roupa dele, ficou pelado, nós dois pelados, eu fiquei quase doido, queria botar dentro, ele falou que ia doer, daí eu mostrei a lata de vaselina, tinha ali para um batalhão usar, expliquei para ele que ia ficar tudo lisinho, não precisava se preocupar, ele falou olha lá, mas deixou passar, daí, meu, foi entrando, dava para sentir que ele estava com medo, eu não tive pressa, sei que sou avantajado, porra, que merda, gozei no meio da entrada, mas da próxima deixa comigo, não vai ter pra ninguém! Tonhão, meu, você tá convidado pro nosso casório, quero você como meu padrinho, ora, as alianças já estavam compradas, então eu resolvi aproveitar, aqueles irmãos dela me apavoram, mas acho que vão ser legais como cunhados, vamos morar na casa dela, lá tem um quarto só para a gente, estão montando legal, você vai ver". "Nem te conto, botei tudo, sangrou um pouquinho, mas nada de assustar, foi bom, foi muito bom, era o que ela queria, a bichinha disse que está apaixonada por mim, eu falei que vou casar, te manca, daí ele chorou, mas disse que está bem, eu entendo, mas não queria ficar longe de você, eu falei que não precisa, casado não é capado, pedi para ele chupar, mas ele estranhou, não quis, ficou bravo, mas lá para a semana que vem ele vem com tudo, está apaixonado por mim, foi ele quem disse". Tonhão comentou que ele e a namorada também estavam começando a juntar dinheiro para comprar móveis, eletrodomésticos, essas coisas que um casal precisa, Tonho ficou contente, "poxa, você vai casar e nem conta", e Tonhão falou que iam morar juntos, mas que Tonho iria à casa deles quando quisesse, sozinho ou com a mulher, "porra, nós somos amigos há tantos anos, que que é isso, você vai ser padrinho do nosso filho, quando nascer, nem conheço tua noiva, mas ela vai ser a madrinha, claro, não se separa o casal", e os dois se abraçaram, emocionados.

sábado, 15 de dezembro de 2007

UMBELINA VIU O UMBIGO DO VOVÔ

... e ficou espantada, mas não pelo umbigo, porque não era tão tola assim, mas pelo que havia abaixo do umbigo. Nunca vira aquilo, embora imaginasse o que fosse, porque já tinha visto o do Rex, andando atrás das cadelas, na rua, e o do burro que puxava a carroça do Zé Alvim, mas o do avô era diferente dos deles todos.
Ela se afastou da porta do banheiro; se ele trancara a porta, era porque não queria que ninguém olhasse, mesmo que fosse pelo enorme buraco da fechadura, que era o que estava fazendo. Foi para seu quarto.
O avô não conseguiu saber, no primeiro momento, quem estava do outro lado da porta, mas sentiu aquele calafrio conhecido, no umbigo. Tudo lá embaixo ficou quente e ele sentiu vontade, muita vontade. Nunca tinha sentido tão forte.
Houve uma segunda vez, no dia seguinte, porque a curiosidade de Umbelina havia ficado muito grande, e foi na mesma hora do banho do avô; a vovó fora à padaria comprar pão e leite e a chave não estava na fechadura, o que permitia uma visão bem clara do banheiro.
O umbigo estava lá e o resto também, que estava ainda maior do que ontem, e de repente o avô desaparecera, a porta desapareceu e o umbigo do vovô estava bem na frente dela.
O avô puxou-a para dentro do banheiro; sabia que não era preciso força e tirou-lhe a roupa com vagar, com prazer. Ela já não era tão criança e aquilo era muito bom.
Umbelina não gostou da dor que sentiu abaixo do umbigo, que deduziu que viesse de debaixo do umbigo do avô; não que tivesse sido uma dor muito forte, mas assustava, porque era nova e porque continuou pelo resto do dia e porque, mesmo no dia seguinte, permaneceu uma ardência lá, uma ardência que era nova.
O avô gostou muito do que aconteceu e que continuou acontecendo, por quantos anos, mesmo? Devem ter sido muitos, em quase todos os dias, com a cumplicidade da avó e o cheiro bom e fresco da neta.
Umbelina gostou do que ficou acontecendo, porque o avô era bondoso com ela; além daquilo tudo, ele ainda lhe dava dinheiro para ir ao cinema, para comprar doces e pipocas, para comprar umas roupas novas.
A mãe ficou contente, porque Umbelina estava sempre com o avô, o normal era a família ser assim, todo mundo conversando e se entendendo, ninguém brigando, era o que ela vivia falando para todas as freguesas para quem vendia cosméticos, bijuterias, roupas e qualquer coisa que significasse dinheiro..
Entretanto, o que é normal, o que é normalidade psicológica? Cada um de nós é uma individualidade psíquica, compreendida e limitada por suas características morfológicas e biológicas, em contínuo evolver sobre as bases de caráter hereditário e biológico. É certo que o que hoje é anormal ou patológico, não necessariamente o foi, ao longo da história do homem; lembrando que Foucault credita à sociedade a determinação do que é lícito e ilícito, saudável e doente, a Bíblia descreve Lot a relacionar-se sexualmente com suas filhas e o conhecimento disso não causa horror aos cristãos, possivelmente por se localizar no passado.
A proibição desse tipo de relação, estabelecida pelas sociedades, em geral através de sua igreja, qualquer que fosse sua denominação, demonstrou-se sábia ao longo da vida, pois obrigou os que desejavam exercê-la publicamente a submeter-se a ritos exaustivos, cuja principal função sempre foi a de reduzir a quase nada os ímpetos sexuais dos diretamente envolvidos na questão e, ainda que tais ímpetos pudessem estar subjacentes à relação, nunca poderiam estar explicitados, como veio ocorrendo, entre Umbelina e seu avô.
Ela não chegou a conhecer o romper desses diques emocionais, porque era muito jovem quando tudo aconteceu e sua capacidade de análise era limitada; seu avô, ao contrário, viveu cada átomo da loucura que nele se instalou, ainda que não o percebesse e ainda que pudesse ter negado, até para si mesmo, qualquer desdobramento negativo de suas prazerosas e secretas atividades incestuosas.
E, embora a tragédia que rodeia esse tipo de transgressão seja sempre previamente anunciada, a força louca da emoção louca somente apareceu quando Umbelina arranjou um namoradinho.
O avô entrou no quarto dela, com o facão de matar porco na mão, e enfiou-lhe no corpo. Foi uma, foram duas, foram cem. A faca cortou e rasgou com a facilidade com que facas de matar porco cortam e rasgam.
Umbelina primeiro se assustou, em seguida teve uma mão decepada, um dos olhos vazados, os dois seios dilacerados; seu monte de Vênus, sua vagina, seu fígado, um rim, os dois pulmões e o coração foram perfurados repetidamente e depois ela morreu. O avô fugiu.
O avô apareceu e na cadeia ficou aguardando o julgamento. Depois de condenado, na cadeia ficou aguardando a liberdade.
Um dia, o avô foi solto e passou a freqüentar a igreja pentecostal, cujo missionário o havia abordado dentro da cadeia. No ônibus, todos os dias, sentava-se, muito gordo, com a enorme bíblia sobre as pernas e parecia um avô. Ele ia de casa para a igreja, da igreja para casa e agora morava sem a esposa e sem a filha.
Talvez elas também tivessem morrido, ou talvez ele tivesse morrido, não se sabia direito. Mas agora pertencia a Deus, e o diabo não tinha mais poder sobre ele.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Bem-vindos

Vou contar umas histórias e espero bons ouvintes!

O CONNAISSEUR

O pai avançou na mãe e o irmão se pôs entre eles: segurou com a esquerda a mão do pai, que segurava a faca, e acertou-lhe o rosto, com a direita. O pai caiu no chão, rolando para perto do fogão de lenha, o mesmo que espalhava um cheiro gostoso pela casa, quando fazia frio, mas que agora serviu como fornecedor da arma que o irmão usou para atacar o pai, em desespero, porque ele não largara a faca e começava a levantar-se; o tição grosso acertou-o no rosto, servindo simultaneamente como acha e como cauterizador.
O pai caiu morto, ou, como disse depois o mais novo deles, estrebuchando, o que era a mesma coisa: suas pernas faziam pequenos espasmos, ora juntas, ora uma, ora outra, sua barriga contraía-se, puxando os ombros e os braços, o rosto repuxava, até que ficou imóvel. Então, o irmão olhou em volta, não deu para saber se seu olhar era de louco, de medo, de satisfação ou do que. Mas foi a última vez que eles o viram.
Desse dia em diante, e por pouco tempo, a mãe conservou o olhar pasmado de quem não acredita no que está vendo, e morreu, menos de um ano depois, porque não comia quase nada e ficava sentada no pé do fogão, bebendo café e pitando o cigarro de palha que ela mesma enrolava, sem conversar, sem lembrar que tinha que fazer comida, deixando para Rafael e Elias o encargo do que pudessem ou soubessem fazer. Quando ela morreu, ele tinha 20 anos e Elias, 18.
Não se pode negar a força de vontade de Rafael: de semi-analfabeto naquela idade, aos 28 ele terminava a faculdade que lhe permitiria viver um pouco mais facilmente do que o faria, se tivesse continuado na roça. Mas havia perdido também Elias, que morreu, aos 20 anos, picado por algum animal peçonhento, assistido a tempo, mas com uma fragilidade congênita de coração, ignorada por todos.
Restou-lhe uma avó torta, madrasta de sua mãe, a quem o pai detestava, e que por isso se mantivera distante deles, mas que sempre demonstrara amá-los muito, a quem ele chamou para morar consigo; ela estava semi-inválida, e por isso preferiu manter-se onde estava, na casa onde trabalhara como a vida toda doméstica, que agora a acolhia como se fosse pessoa da família.
Também não se pode negar sua vontade de viver: aos 30, estava casado com Alderígia, com quem compartilhava a vida e a renda, que lhes permitiu comprar um apartamento, no qual criariam os filhos, envelheceriam e ainda ajudariam a criar os netos.
Tiveram uma menina, dois anos depois, e menos de seis meses depois do parto ela estava grávida de novo, o que os deixou felizes, porque já não eram tão crianças e criariam os dois quase ao mesmo tempo, com o que lhes restaria tempo, principalmente a ela, que era engenheira civil, para dedicar-se às suas profissões, assim que os filhos estivessem indo para a escola.
A seqüência foi tão estúpida, que os amigos levaram tempo para reestruturar-se da morte dela: estavam em Ipanema, em um grupo, e resolveram ir para Vila Isabel. Eles não conheciam o caminho e os outros dois casais, que estavam em um só carro, foram na frente, com eles a segui-los; na Lagoa Rodrigo de Freitas, ele se confundiu e manteve-se atrás de um carro igual, que seguiu para o subúrbio.
Muito tempo depois, deram-se conta de que havia algo errado, o que ele confirmou, quando emparelhou com o outro veículo e viram que não era o de seus amigos; pelo celular, riram-se todos, ele recebeu instruções de como voltar e, no caminho, passou no meio de um tiroteio que a polícia travava com bandidos. Uma bala acertou-a na cabeça, matando-a instantaneamente e levando junto sua gravidez de quatro meses.
A partir de sua viuvez, a avó torta aceitou vir viver com ele e sua filha, de quem cuidou amorosamente, durante quatro anos, até o dia em que ele saiu para passear de bicicleta, com ela no quadro, rindo e brincando, na pista exclusiva para ciclistas, que foi invadida por um carro, cujo motorista perdeu o controle, porque um pneu estourou, e ele teve a perna esquerda fraturada e sua filha morta, esmagada.
Ele tinha 40 anos, quando sua avó torta teve diagnosticado o câncer de útero, que foi tratado exaustivamente, mas que se mostrou implacável e invadiu-a, com alguma rapidez, mas sem atingir qualquer órgão vital, permitindo que ela sobrevivesse por oito anos, ao final dos quais o mau cheiro que se desprendia de seu corpo era constrangedor para todo o edifício e seu peso havia baixado para 26 quilos, com o qual morreu.
O enterro foi concorrido, porque a família, para quem ela trabalhara por muitos anos, que a acompanhou durante o sofrimento que a doença lhe impôs e ajudou a custear o tratamento, compareceu no cemitério.
Quando o caixão baixou no túmulo e o coveiro empunhou a pá, Rafael tomou-a de sua mão, falou “disso, eu entendo!”, e jogou terra, até encher a sepultura.