O pai avançou na mãe e o irmão se pôs entre eles: segurou com a esquerda a mão do pai, que segurava a faca, e acertou-lhe o rosto, com a direita. O pai caiu no chão, rolando para perto do fogão de lenha, o mesmo que espalhava um cheiro gostoso pela casa, quando fazia frio, mas que agora serviu como fornecedor da arma que o irmão usou para atacar o pai, em desespero, porque ele não largara a faca e começava a levantar-se; o tição grosso acertou-o no rosto, servindo simultaneamente como acha e como cauterizador.
O pai caiu morto, ou, como disse depois o mais novo deles, estrebuchando, o que era a mesma coisa: suas pernas faziam pequenos espasmos, ora juntas, ora uma, ora outra, sua barriga contraía-se, puxando os ombros e os braços, o rosto repuxava, até que ficou imóvel. Então, o irmão olhou em volta, não deu para saber se seu olhar era de louco, de medo, de satisfação ou do que. Mas foi a última vez que eles o viram.
Desse dia em diante, e por pouco tempo, a mãe conservou o olhar pasmado de quem não acredita no que está vendo, e morreu, menos de um ano depois, porque não comia quase nada e ficava sentada no pé do fogão, bebendo café e pitando o cigarro de palha que ela mesma enrolava, sem conversar, sem lembrar que tinha que fazer comida, deixando para Rafael e Elias o encargo do que pudessem ou soubessem fazer. Quando ela morreu, ele tinha 20 anos e Elias, 18.
Não se pode negar a força de vontade de Rafael: de semi-analfabeto naquela idade, aos 28 ele terminava a faculdade que lhe permitiria viver um pouco mais facilmente do que o faria, se tivesse continuado na roça. Mas havia perdido também Elias, que morreu, aos 20 anos, picado por algum animal peçonhento, assistido a tempo, mas com uma fragilidade congênita de coração, ignorada por todos.
Restou-lhe uma avó torta, madrasta de sua mãe, a quem o pai detestava, e que por isso se mantivera distante deles, mas que sempre demonstrara amá-los muito, a quem ele chamou para morar consigo; ela estava semi-inválida, e por isso preferiu manter-se onde estava, na casa onde trabalhara como a vida toda doméstica, que agora a acolhia como se fosse pessoa da família.
Também não se pode negar sua vontade de viver: aos 30, estava casado com Alderígia, com quem compartilhava a vida e a renda, que lhes permitiu comprar um apartamento, no qual criariam os filhos, envelheceriam e ainda ajudariam a criar os netos.
Tiveram uma menina, dois anos depois, e menos de seis meses depois do parto ela estava grávida de novo, o que os deixou felizes, porque já não eram tão crianças e criariam os dois quase ao mesmo tempo, com o que lhes restaria tempo, principalmente a ela, que era engenheira civil, para dedicar-se às suas profissões, assim que os filhos estivessem indo para a escola.
A seqüência foi tão estúpida, que os amigos levaram tempo para reestruturar-se da morte dela: estavam em Ipanema, em um grupo, e resolveram ir para Vila Isabel. Eles não conheciam o caminho e os outros dois casais, que estavam em um só carro, foram na frente, com eles a segui-los; na Lagoa Rodrigo de Freitas, ele se confundiu e manteve-se atrás de um carro igual, que seguiu para o subúrbio.
Muito tempo depois, deram-se conta de que havia algo errado, o que ele confirmou, quando emparelhou com o outro veículo e viram que não era o de seus amigos; pelo celular, riram-se todos, ele recebeu instruções de como voltar e, no caminho, passou no meio de um tiroteio que a polícia travava com bandidos. Uma bala acertou-a na cabeça, matando-a instantaneamente e levando junto sua gravidez de quatro meses.
A partir de sua viuvez, a avó torta aceitou vir viver com ele e sua filha, de quem cuidou amorosamente, durante quatro anos, até o dia em que ele saiu para passear de bicicleta, com ela no quadro, rindo e brincando, na pista exclusiva para ciclistas, que foi invadida por um carro, cujo motorista perdeu o controle, porque um pneu estourou, e ele teve a perna esquerda fraturada e sua filha morta, esmagada.
Ele tinha 40 anos, quando sua avó torta teve diagnosticado o câncer de útero, que foi tratado exaustivamente, mas que se mostrou implacável e invadiu-a, com alguma rapidez, mas sem atingir qualquer órgão vital, permitindo que ela sobrevivesse por oito anos, ao final dos quais o mau cheiro que se desprendia de seu corpo era constrangedor para todo o edifício e seu peso havia baixado para 26 quilos, com o qual morreu.
O enterro foi concorrido, porque a família, para quem ela trabalhara por muitos anos, que a acompanhou durante o sofrimento que a doença lhe impôs e ajudou a custear o tratamento, compareceu no cemitério.
Quando o caixão baixou no túmulo e o coveiro empunhou a pá, Rafael tomou-a de sua mão, falou “disso, eu entendo!”, e jogou terra, até encher a sepultura.
domingo, 2 de dezembro de 2007
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