... e ficou espantada, mas não pelo umbigo, porque não era tão tola assim, mas pelo que havia abaixo do umbigo. Nunca vira aquilo, embora imaginasse o que fosse, porque já tinha visto o do Rex, andando atrás das cadelas, na rua, e o do burro que puxava a carroça do Zé Alvim, mas o do avô era diferente dos deles todos.
Ela se afastou da porta do banheiro; se ele trancara a porta, era porque não queria que ninguém olhasse, mesmo que fosse pelo enorme buraco da fechadura, que era o que estava fazendo. Foi para seu quarto.
O avô não conseguiu saber, no primeiro momento, quem estava do outro lado da porta, mas sentiu aquele calafrio conhecido, no umbigo. Tudo lá embaixo ficou quente e ele sentiu vontade, muita vontade. Nunca tinha sentido tão forte.
Houve uma segunda vez, no dia seguinte, porque a curiosidade de Umbelina havia ficado muito grande, e foi na mesma hora do banho do avô; a vovó fora à padaria comprar pão e leite e a chave não estava na fechadura, o que permitia uma visão bem clara do banheiro.
O umbigo estava lá e o resto também, que estava ainda maior do que ontem, e de repente o avô desaparecera, a porta desapareceu e o umbigo do vovô estava bem na frente dela.
O avô puxou-a para dentro do banheiro; sabia que não era preciso força e tirou-lhe a roupa com vagar, com prazer. Ela já não era tão criança e aquilo era muito bom.
Umbelina não gostou da dor que sentiu abaixo do umbigo, que deduziu que viesse de debaixo do umbigo do avô; não que tivesse sido uma dor muito forte, mas assustava, porque era nova e porque continuou pelo resto do dia e porque, mesmo no dia seguinte, permaneceu uma ardência lá, uma ardência que era nova.
O avô gostou muito do que aconteceu e que continuou acontecendo, por quantos anos, mesmo? Devem ter sido muitos, em quase todos os dias, com a cumplicidade da avó e o cheiro bom e fresco da neta.
Umbelina gostou do que ficou acontecendo, porque o avô era bondoso com ela; além daquilo tudo, ele ainda lhe dava dinheiro para ir ao cinema, para comprar doces e pipocas, para comprar umas roupas novas.
A mãe ficou contente, porque Umbelina estava sempre com o avô, o normal era a família ser assim, todo mundo conversando e se entendendo, ninguém brigando, era o que ela vivia falando para todas as freguesas para quem vendia cosméticos, bijuterias, roupas e qualquer coisa que significasse dinheiro..
Entretanto, o que é normal, o que é normalidade psicológica? Cada um de nós é uma individualidade psíquica, compreendida e limitada por suas características morfológicas e biológicas, em contínuo evolver sobre as bases de caráter hereditário e biológico. É certo que o que hoje é anormal ou patológico, não necessariamente o foi, ao longo da história do homem; lembrando que Foucault credita à sociedade a determinação do que é lícito e ilícito, saudável e doente, a Bíblia descreve Lot a relacionar-se sexualmente com suas filhas e o conhecimento disso não causa horror aos cristãos, possivelmente por se localizar no passado.
A proibição desse tipo de relação, estabelecida pelas sociedades, em geral através de sua igreja, qualquer que fosse sua denominação, demonstrou-se sábia ao longo da vida, pois obrigou os que desejavam exercê-la publicamente a submeter-se a ritos exaustivos, cuja principal função sempre foi a de reduzir a quase nada os ímpetos sexuais dos diretamente envolvidos na questão e, ainda que tais ímpetos pudessem estar subjacentes à relação, nunca poderiam estar explicitados, como veio ocorrendo, entre Umbelina e seu avô.
Ela não chegou a conhecer o romper desses diques emocionais, porque era muito jovem quando tudo aconteceu e sua capacidade de análise era limitada; seu avô, ao contrário, viveu cada átomo da loucura que nele se instalou, ainda que não o percebesse e ainda que pudesse ter negado, até para si mesmo, qualquer desdobramento negativo de suas prazerosas e secretas atividades incestuosas.
E, embora a tragédia que rodeia esse tipo de transgressão seja sempre previamente anunciada, a força louca da emoção louca somente apareceu quando Umbelina arranjou um namoradinho.
O avô entrou no quarto dela, com o facão de matar porco na mão, e enfiou-lhe no corpo. Foi uma, foram duas, foram cem. A faca cortou e rasgou com a facilidade com que facas de matar porco cortam e rasgam.
Umbelina primeiro se assustou, em seguida teve uma mão decepada, um dos olhos vazados, os dois seios dilacerados; seu monte de Vênus, sua vagina, seu fígado, um rim, os dois pulmões e o coração foram perfurados repetidamente e depois ela morreu. O avô fugiu.
O avô apareceu e na cadeia ficou aguardando o julgamento. Depois de condenado, na cadeia ficou aguardando a liberdade.
Um dia, o avô foi solto e passou a freqüentar a igreja pentecostal, cujo missionário o havia abordado dentro da cadeia. No ônibus, todos os dias, sentava-se, muito gordo, com a enorme bíblia sobre as pernas e parecia um avô. Ele ia de casa para a igreja, da igreja para casa e agora morava sem a esposa e sem a filha.
Talvez elas também tivessem morrido, ou talvez ele tivesse morrido, não se sabia direito. Mas agora pertencia a Deus, e o diabo não tinha mais poder sobre ele.
sábado, 15 de dezembro de 2007
domingo, 2 de dezembro de 2007
O CONNAISSEUR
O pai avançou na mãe e o irmão se pôs entre eles: segurou com a esquerda a mão do pai, que segurava a faca, e acertou-lhe o rosto, com a direita. O pai caiu no chão, rolando para perto do fogão de lenha, o mesmo que espalhava um cheiro gostoso pela casa, quando fazia frio, mas que agora serviu como fornecedor da arma que o irmão usou para atacar o pai, em desespero, porque ele não largara a faca e começava a levantar-se; o tição grosso acertou-o no rosto, servindo simultaneamente como acha e como cauterizador.
O pai caiu morto, ou, como disse depois o mais novo deles, estrebuchando, o que era a mesma coisa: suas pernas faziam pequenos espasmos, ora juntas, ora uma, ora outra, sua barriga contraía-se, puxando os ombros e os braços, o rosto repuxava, até que ficou imóvel. Então, o irmão olhou em volta, não deu para saber se seu olhar era de louco, de medo, de satisfação ou do que. Mas foi a última vez que eles o viram.
Desse dia em diante, e por pouco tempo, a mãe conservou o olhar pasmado de quem não acredita no que está vendo, e morreu, menos de um ano depois, porque não comia quase nada e ficava sentada no pé do fogão, bebendo café e pitando o cigarro de palha que ela mesma enrolava, sem conversar, sem lembrar que tinha que fazer comida, deixando para Rafael e Elias o encargo do que pudessem ou soubessem fazer. Quando ela morreu, ele tinha 20 anos e Elias, 18.
Não se pode negar a força de vontade de Rafael: de semi-analfabeto naquela idade, aos 28 ele terminava a faculdade que lhe permitiria viver um pouco mais facilmente do que o faria, se tivesse continuado na roça. Mas havia perdido também Elias, que morreu, aos 20 anos, picado por algum animal peçonhento, assistido a tempo, mas com uma fragilidade congênita de coração, ignorada por todos.
Restou-lhe uma avó torta, madrasta de sua mãe, a quem o pai detestava, e que por isso se mantivera distante deles, mas que sempre demonstrara amá-los muito, a quem ele chamou para morar consigo; ela estava semi-inválida, e por isso preferiu manter-se onde estava, na casa onde trabalhara como a vida toda doméstica, que agora a acolhia como se fosse pessoa da família.
Também não se pode negar sua vontade de viver: aos 30, estava casado com Alderígia, com quem compartilhava a vida e a renda, que lhes permitiu comprar um apartamento, no qual criariam os filhos, envelheceriam e ainda ajudariam a criar os netos.
Tiveram uma menina, dois anos depois, e menos de seis meses depois do parto ela estava grávida de novo, o que os deixou felizes, porque já não eram tão crianças e criariam os dois quase ao mesmo tempo, com o que lhes restaria tempo, principalmente a ela, que era engenheira civil, para dedicar-se às suas profissões, assim que os filhos estivessem indo para a escola.
A seqüência foi tão estúpida, que os amigos levaram tempo para reestruturar-se da morte dela: estavam em Ipanema, em um grupo, e resolveram ir para Vila Isabel. Eles não conheciam o caminho e os outros dois casais, que estavam em um só carro, foram na frente, com eles a segui-los; na Lagoa Rodrigo de Freitas, ele se confundiu e manteve-se atrás de um carro igual, que seguiu para o subúrbio.
Muito tempo depois, deram-se conta de que havia algo errado, o que ele confirmou, quando emparelhou com o outro veículo e viram que não era o de seus amigos; pelo celular, riram-se todos, ele recebeu instruções de como voltar e, no caminho, passou no meio de um tiroteio que a polícia travava com bandidos. Uma bala acertou-a na cabeça, matando-a instantaneamente e levando junto sua gravidez de quatro meses.
A partir de sua viuvez, a avó torta aceitou vir viver com ele e sua filha, de quem cuidou amorosamente, durante quatro anos, até o dia em que ele saiu para passear de bicicleta, com ela no quadro, rindo e brincando, na pista exclusiva para ciclistas, que foi invadida por um carro, cujo motorista perdeu o controle, porque um pneu estourou, e ele teve a perna esquerda fraturada e sua filha morta, esmagada.
Ele tinha 40 anos, quando sua avó torta teve diagnosticado o câncer de útero, que foi tratado exaustivamente, mas que se mostrou implacável e invadiu-a, com alguma rapidez, mas sem atingir qualquer órgão vital, permitindo que ela sobrevivesse por oito anos, ao final dos quais o mau cheiro que se desprendia de seu corpo era constrangedor para todo o edifício e seu peso havia baixado para 26 quilos, com o qual morreu.
O enterro foi concorrido, porque a família, para quem ela trabalhara por muitos anos, que a acompanhou durante o sofrimento que a doença lhe impôs e ajudou a custear o tratamento, compareceu no cemitério.
Quando o caixão baixou no túmulo e o coveiro empunhou a pá, Rafael tomou-a de sua mão, falou “disso, eu entendo!”, e jogou terra, até encher a sepultura.
O pai caiu morto, ou, como disse depois o mais novo deles, estrebuchando, o que era a mesma coisa: suas pernas faziam pequenos espasmos, ora juntas, ora uma, ora outra, sua barriga contraía-se, puxando os ombros e os braços, o rosto repuxava, até que ficou imóvel. Então, o irmão olhou em volta, não deu para saber se seu olhar era de louco, de medo, de satisfação ou do que. Mas foi a última vez que eles o viram.
Desse dia em diante, e por pouco tempo, a mãe conservou o olhar pasmado de quem não acredita no que está vendo, e morreu, menos de um ano depois, porque não comia quase nada e ficava sentada no pé do fogão, bebendo café e pitando o cigarro de palha que ela mesma enrolava, sem conversar, sem lembrar que tinha que fazer comida, deixando para Rafael e Elias o encargo do que pudessem ou soubessem fazer. Quando ela morreu, ele tinha 20 anos e Elias, 18.
Não se pode negar a força de vontade de Rafael: de semi-analfabeto naquela idade, aos 28 ele terminava a faculdade que lhe permitiria viver um pouco mais facilmente do que o faria, se tivesse continuado na roça. Mas havia perdido também Elias, que morreu, aos 20 anos, picado por algum animal peçonhento, assistido a tempo, mas com uma fragilidade congênita de coração, ignorada por todos.
Restou-lhe uma avó torta, madrasta de sua mãe, a quem o pai detestava, e que por isso se mantivera distante deles, mas que sempre demonstrara amá-los muito, a quem ele chamou para morar consigo; ela estava semi-inválida, e por isso preferiu manter-se onde estava, na casa onde trabalhara como a vida toda doméstica, que agora a acolhia como se fosse pessoa da família.
Também não se pode negar sua vontade de viver: aos 30, estava casado com Alderígia, com quem compartilhava a vida e a renda, que lhes permitiu comprar um apartamento, no qual criariam os filhos, envelheceriam e ainda ajudariam a criar os netos.
Tiveram uma menina, dois anos depois, e menos de seis meses depois do parto ela estava grávida de novo, o que os deixou felizes, porque já não eram tão crianças e criariam os dois quase ao mesmo tempo, com o que lhes restaria tempo, principalmente a ela, que era engenheira civil, para dedicar-se às suas profissões, assim que os filhos estivessem indo para a escola.
A seqüência foi tão estúpida, que os amigos levaram tempo para reestruturar-se da morte dela: estavam em Ipanema, em um grupo, e resolveram ir para Vila Isabel. Eles não conheciam o caminho e os outros dois casais, que estavam em um só carro, foram na frente, com eles a segui-los; na Lagoa Rodrigo de Freitas, ele se confundiu e manteve-se atrás de um carro igual, que seguiu para o subúrbio.
Muito tempo depois, deram-se conta de que havia algo errado, o que ele confirmou, quando emparelhou com o outro veículo e viram que não era o de seus amigos; pelo celular, riram-se todos, ele recebeu instruções de como voltar e, no caminho, passou no meio de um tiroteio que a polícia travava com bandidos. Uma bala acertou-a na cabeça, matando-a instantaneamente e levando junto sua gravidez de quatro meses.
A partir de sua viuvez, a avó torta aceitou vir viver com ele e sua filha, de quem cuidou amorosamente, durante quatro anos, até o dia em que ele saiu para passear de bicicleta, com ela no quadro, rindo e brincando, na pista exclusiva para ciclistas, que foi invadida por um carro, cujo motorista perdeu o controle, porque um pneu estourou, e ele teve a perna esquerda fraturada e sua filha morta, esmagada.
Ele tinha 40 anos, quando sua avó torta teve diagnosticado o câncer de útero, que foi tratado exaustivamente, mas que se mostrou implacável e invadiu-a, com alguma rapidez, mas sem atingir qualquer órgão vital, permitindo que ela sobrevivesse por oito anos, ao final dos quais o mau cheiro que se desprendia de seu corpo era constrangedor para todo o edifício e seu peso havia baixado para 26 quilos, com o qual morreu.
O enterro foi concorrido, porque a família, para quem ela trabalhara por muitos anos, que a acompanhou durante o sofrimento que a doença lhe impôs e ajudou a custear o tratamento, compareceu no cemitério.
Quando o caixão baixou no túmulo e o coveiro empunhou a pá, Rafael tomou-a de sua mão, falou “disso, eu entendo!”, e jogou terra, até encher a sepultura.
Assinar:
Comentários (Atom)